Professora fala da sua luta para obter o título de doutora e pós-doutora

A professora Edna Magalhães, casada e mãe de duas filhas, leciona filosofia na Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina
EDNALDO CÍCERO FREITAS
jornalista
redacao@edcicero.com.br

O professor Carlos Alberto Decotelli, indicado para o Ministério da Educação, apresentou um currículo com algumas informações falsas. Ele informou que tinha doutorado e pós-doutorado. Nada disso é verdade.

Devido a estas mentiras, Decotelli ficou menos de uma semana no cargo. Nomeado por Jair Bolsonaro, nem chegou a tomar posse. Hoje (30), pediu demissão. O Brasil está sem ministro da Educação. Há um bom tempo, diga-se.

A professora de filosofia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Edna Magalhães, doutora e pós-doutora, considera que Decotelli agiu “de má fé” e foi desrespeitoso com quem se esforça para conquistar estes títulos. Resultado de muito estudo, sacrifícios e renúncias.

Em um texto publicado na sua rede social, a professora fala da sua luta para concluir o mestrado, doutorado e pós-doutorado. E do apoio da família. Edna Magalhães é casada e mãe de duas filhas (e agora avó),

Abaixo, o texto da professora, retirado da sua página no facebook:

 

Edna Magalhães, doutora e pós-doutora

Muitos colegas estão relatando suas experiências e esforço que demandaram para a obtenção do título de doutorado. Vi o depoimento da Beatriz Gama Rodrigues e também me senti no dever de relatar minha experiência, sobretudo neste momento em que pessoas inescrupulosas como o provável ministro da educação, num ato de má fé, se autodeclara doutor e pós-doutor no currículo Lattes.

Tudo na minha vida foi conquistado com muito sacrifício e luta. Minha primeira pós-graduação foi em 1995, num curso de especialização em Belo Horizonte, o famoso PREPES da PUC. Naquele período eram raros os cursos na UFPI. Íamos nas férias escolares, 15 dias em julho e 15 dias em janeiro. Deixava as duas crianças uma de 5 e outra de 7 anos com pai. Passava o ano fazendo os trabalhos e dando aulas no IFPI, IDB e como professora substituta da UFPI. Depois veio a luta para entrar no mestrado: fui passar na terceira tentativa, sempre me informaram que não tinha orientador para meu tema. Na terceira tentativa, no ano 2000, passei em primeiro lugar. Dava aulas, era chefe de departamento e militante do movimento docente. Meu marido e filhas reclamavam demais, mas acabavam me apoiando. Felizmente conclui com êxito a dissertação.

Depois veio o doutorado, mais tentativas, decepções, frustações, mas continuava estudando. Em 2007, passei para o doutorado em Filosofia na UFMG. Não conseguimos bolsa de estudos pela Capes. Consegui afastamento de apenas 6 meses. Uma universidade de excelência como UFMG tem um nível de exigência imensurável, então era sempre muitos desafios. Ler textos em vários idiomas, de preferência no idioma original da tradição filosófica da tese. Após finalizar os créditos entra-se na fase de apreciação do projeto definitivo de tese. Você passa por uma nova seleção, desta vez pelo colegiado do programa. Com o projeto aprovado começa a dolorosa fase da orientação. Dolorosa pela exigência da qualidade, mas tive a honra de ser orientada pelo filósofo Margutti Pinto. Das idas e vindas do seu texto da revisão do orientador, você tem a sensação que vai desabar de tanta pressão. Então a essas alturas seu psicológico está em desintegração.! Em agosto de 2008, tive um grave problema de saúde: sofri um derrame cerebral e fiquei seis meses de licença. Graças a Deus não tive sequelas. E em 2009 retomei a fase de redação da tese. Tive que voltar ao trabalho e conciliar a tese com a rotina: aulas, publicação, eventos, família, etc.

Obtive o título de doutora em Filosofia em 2012. Em 2015, concorri com centenas de candidatos a uma bolsa de pós-doutorado no exterior. Meu projeto foi aprovado, bolsa concedida por mérito e fui para a Espanha, Universidad de Navarra, onde fiz meu estágio sob a supervisão de Jaime Nubiola, uma figura humana excepcional e um intelectual respeitadíssimo no mundo todo. Tudo isso é pra dizer que quando vemos a banalização e mentiras sobre estes processos formativos nos sentimos extremamente ofendidos como pesquisadores.

 

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